Textos


Se Deus fez o Homem de um pedaço de argila, Conceição Fernandes, quando brinca de deus, faz da argila estrelas, grãos, sementes que desafiam a gravidade e obedecem a uma ordem. A ordem que vem do próprio Deus, dá suporte às órbitas e sustentação à massa. Assim são os verdadeiros criadores que desafiam seus materias e deles servem-se como escravos / senhores, sublimam a matéria e desta transcendem em silêncio que se vê. Assim é Conceição Fernandes, criativa, senhora dos seus materiais, sabedora do seu oficio e do seu destino de artista. Comprometida com a Terra que é mãe, e com todo o Universo.

É um privilégio para o Palacete das Artes Rodin Bahia ter na galeria de sua Mansarda esta belíssima exposição com curadoria impecável de VigaGordilho.

Esta Exposição é um instante congelado de inspiração que mostra possibilidades que só a arte pode proporcionar.

Murilo Ribeiro
Diretor do Palacete das Artes Rodin Bahia
Salvador - BA - 2009
Para onde foi o saveiro?

"Lembro-me de, quando criança, em férias na ilha de Itaparica, ver o saveiro que vinha de Maragogipinho carregado de cerâmica colorida se aproximar da ponte e partir... Depois, na venda da Praça da Quitanda, comprávamos os caxixis para brincar no quintal. Mas para onde ia o saveiro?" (Conceição Fernandes)

O céu noturno do grupo étnico Boorong, a noroeste de Victoria, na Austrália, é como um mural gigante repleto de potentes imagens representando uma gama imensa de conhecimento. Eles acreditam que interpretando o céu vão encontrar explicação para suas crenças e suas origens, pois, as estrelas estão também refletidas na terra e em toda sua intensidade no lago da região. Totêmicas criaturas representadas nas constelações são unidas como bailarinas em ritmos peculiares transmitidos de geração a geração pela tradição oral.

É justamente sob estas reflexões que situo a pesquisa prática-teórico de Conceição Fernandes. Suas “obras - estrelas” tornaram-se signos de um procedimento cerâmico contemporâneo. “Granulações” suspensas nos nichos amplos de um telhado mansarda conquistaram, no sótão do Palacete das Artes Rodin, uma parcela do céu. Bailam também em uma escala do imaginário entre cosmovisões ameríndias e devaneios universais, que seguramente, tiveram sua matriz genética no “quintal” da artista.

Em forma de uma grande espiral, grãos - sementes cuidadosamente confeccionados em barro cozido - comungam e concentram síntese e gênese de outras possibilidades cerâmicas: Sítio cósmico, Cantos do joão-de-barro, Caco-cipó e Proto-estrelas. Compartilham o espaço em sítio específico gerando um movimento de terra a Terra, pois foi assim que a prática do atelier deu forma ao seu pensamento visual e germinou suas obras-estrelas sonoras, formatando as constelações plásticas aqui apresentadas.

Sob estas vertentes, os caxixis que eram brinquedos nas mãos de Conceição estão estreitamente ligados à multiplicidade das relações que os mantiveram como objeto de investigação, e, seguramente, foram observados por um “sonhador que modela”, parafraseando o filósofo francês Gaston Bachelard.

Acredito, que com este percurso, ela pode constatar, através do seu observatório astronômico e imaginário, que aquele “saveiro” que ainda navega em suas memórias aportou na terra e no céu carregado de grãos e pequenas estrelas.

Entre, a obra agora flutua...

VigaGordilho
Outono 2009
Salvador - BA
Germinando Estrelas

“A cerâmica representa para mim o refazer de cada dia, o exercício de reflexão e compreensão do presente, nas possibilidades de transformação que este material me oferece.” (Conceição Fernandes)

Conceição Fernandes imprime novo parâmetro à arte milenar do barro, adicionando o som à qualidade artística da sua cerâmica, nas peças dessa recente série Germinando Estrelas, que a EBEC Galeria de Arte apresenta ao público.

Uma semente bipartida do cerrado motivou seu processo criativo, inspirando o formato das peças, com concavidade para conter os elementos provocadores do som. A influência permanente em toda fase da artista, visível no desenho revelador do seu propósito, vem do firmamento: a casa/atelier de Conceição tem uma torre e observar os astros, fonte maior do seu interesse, faz parte do seu cotidiano.

Nessas peças usou a mesma técnica simples da cerâmica popular, e ao relacioná-las às proto-estrelas no desenho e no título da série, atirou-as ao céu onde tudo se universaliza em igual projeção.

Muitos instrumentos são feitos de barro. Conceição faz peças de cerâmica artística que podem ser tocadas. O som ecoa delas pelo sopro, chacoalhando-as, passando vareta de madeira ou metal sobre as ranhuras, ou batendo como num tambor, para extrair som e ritmo.

A atração das formas moldadas na exatidão da técnica da artista se amplia na suavidade do desenho, que enaltece o grafismo regional: nas fileiras de riscos ou pontinhos iguais, nas palmas, na forma elíptica. Sentir na mão o contato da peça e fazê-la soar, marcando o ritmo, é sensação inefável, que ultrapassa a visual. Quando tocadas por uma Emília Biancardi marcando nossos ritmos, a alma brasileira fica em festa.

Matilde Matos
(da ABCA e AICA)
Salvador - BA - 2007
Os procedimentos cerâmicos a serviço da arte contemporânea

A superação de travas e limitações entre linguagens e técnicas resultou na expansão da linguagem da arte na contemporaneidade e, em particular, da escultórica, quando ela abre seu campo de atuação, integrando materiais e técnicas tradicionais junto às práticas artísticas contemporâneas. Inclui-se aí a cerâmica, técnica dos tempos primevos, também englobada dentro das práticas escultóricas como concepção ampliada.

Assim, fazendo uso de um determinado material, processo, procedimento, etc., a cerâmica passa a existir em função de uma postura criativa pessoal, respondendo a uma atitude com fundamento conceitual justificando uma trajetória e não a uma aptidão manual que tem como resultado a obtenção de um simples produto. Parafraseando a Vicent Roda Cordona, a obra se converte em um ato que revela a atitude intelectual e filosófica do artista, além de sua habilidade técnica.

Considerando Picasso e Miró como iniciadores da utilização dos procedimentos cerâmicos na confecção de obras escultóricas, devemos considerá-los também como os responsáveis pela abertura deste novo e amplo campo de expressão na arte contemporânea, pois, depois deles, o uso dos procedimentos cerâmicos está a serviço de poéticas diversas e é determinado pela decisão do artista de utilizar um material específico, que dê um caráter desejado a sua obra.

Neste sentido, a obra de Conceição Fernandes alcança este conceito quando ela reconhece nos materiais e procedimentos cerâmicos a capacidade de estabelecer uma relação de reprodução com a realidade, manter uma forma, uma textura, uma marca, buscando na existência física do material o significado de sua obra como expressão de sua verdade.

Nanci Novais
Artista plástica, Professora da Escola de Belas Artes, UFBA
Salvador - 2007